Tem a mentira necessária, aquela que pode até salvar seu casamento; tipo quando a dita cuja pergunta: gostou do meu vestido novo? – aquele que parece um abajur comprado na “A Expositora” da Baixa dos Sapateiros – você tem que elogiar a cor, o corte, dizer que o decote poderia ser um pouco maior “para destacar as verdadeiras preciosidades que são seus seios”… mas limite-se aos “caídos” porque mentira em excesso leva à desconfiança de que você só quer enganá-la para camuflar outros objetivos, digamos, “não muito republicanos”.
Tem também a mentira cabeluda, mas essa eu conheço só “de nome”. Deve ser aquelas contadas pelos políticos durante as campanhas.
Agora, tem a culhuda… dessa, fuja como o diabo foge da igreja do Bonfim na sexta da Paixão.
O uso da expressão “culhudeiro” está diminuindo, mas ainda é reconhecido na cultura popular como sinônimo de um mentiroso do “primeiro time”. Primeiro time da Champions League, diga-se de passagem, e não de um BA x VI mequetrefe.
Algumas culhudas ficaram famosas na Bahia, mais até que pesquisa eleitoral, que na “Boa Terra”, só dá ao contrário. Teve aquela de Maragogipe que contava como Arriô Pagou apostou com Come Chorando que consegue nadar de Maragogipe até Salvador. Até aí era apenas uma “mentira cabeluda”, vez que nadar aproximadamente 28 milhas náuticas (cerca de 53 km em linha reta) não é fácil, mas é até possível. A coisa começou a pegar quando Arriô acrescentou “sem usar os braços”.
“Não consegue”, retrucou ‘Come’. “Quer apostar?” indagou ‘Arriô’. Minha égua contra seus dois bodes… Burro Inchado, que assistia o debate, interveio, apaziguante: “Dois bodes contra uma égua manca é injusto, O certo é um contra um…”.
Feita a correção diplomática – porque toda mentira grande sempre precisa de um mediador – firmou-se a aposta. Arriô Pagou saiu de Maragogipe numa madrugada dessas. Levava apenas um calção rasgado “nos fundilhos”, um chapéu de palha e a autoconfiança típica dos homens que nunca permitiram que a verdade atrapalhasse uma boa história.
Dizem que foi visto atravessando o Paraguaçu feito um surubim endemoniado, com as pernas batendo na água como hélices de rabeta. Em Saubara, juram que um pescador ofereceu ajuda, mas ele recusou: “Apostei sem usar os braços, não sem dignidade”.
Em Salinas da Margarida, contam que as marés abriram caminho. Já em Itaparica, uma velha senhora garantiu ter visto Iemanjá empurrando o sujeito com um dedo só, “porque mentira boa também é patrimônio cultural”.
Dizem que quando finalmente chegou em Salvador, cansado, salgado e quase transparente de fome, Arriô subiu a Ladeira da Montanha arrastando o resto da alma. Foi recebido por Come Chorando, Burro Inchado e uma multidão maior que fila de regulação no SUS.
– E então? – perguntou Come Chorando, desconfiado. – Nadou mesmo sem usar os braços?
Arriô cuspiu água, ajeitou o chapéu e respondeu: “Nadar, nadei… mas confesso que em alguns trechos precisei usar as mãos pra espantar os tubarões”.
Pronto. Naquele instante, a mentira deixou de ser culhuda e virou documento histórico.
Porque a verdadeira mentira não é aquela impossível. A mentira perfeita é a que carrega um detalhe inútil, um remendo de sinceridade, um prego enferrujado segurando a porta da fantasia. É isso que faz a gente acreditar.
Talvez por isso o mundo continue funcionando. Casamentos sobrevivem por pequenas mentiras perfumadas. Campanhas eleitorais vencem por culhudas profissionais. E amizades antigas resistem porque sempre haverá alguém disposto a jurar que pegou um peixe “desse tamanho”, embora o braço já não alcance a metade do exagero. E até presidente americano dizendo que ganhou a guerra contra o Irã.
No fundo, a mentira é a literatura do povo simples.
A diferença é que o escritor chama de metáfora.
E o culhudeiro chama de “relato fiel dos fatos”.
Fonte: HOJE BAHIA